Ser vista de perto assim, dá medo. Estar
exposta desse jeito, dá medo. É inevitável lembrar de todas as histórias
anteriores e dos finais que eu abortei. Dos sonhos e planos que eu
manchei. De tudo que eu perdi, do pouco que eu ganhei. As falas
e cenas sempre me parecem deja vu e eu recuo, como se fosse uma segunda
oportunidade de sair antes de sangrar, da mesma história de sempre. Mas
não é e não sei o que assusta mais: o velho ou o novo. Eu passei anos
trabalhando meu desapego, porque teria sido insuportável viver
acreditada pra sempre. E uma das minhas maiores conquistas- e dores
também- foi conseguir seguir com a minha vida, apesar de qualquer pesar,
porque ser sozinha era uma solução e não problema. Ter a certeza de que
eu ia ficar bem, como sempre e que o fim sempre chegava, então quanto
antes melhor. No dia em que eu aprendi a dar tchau com facilidade, a ser
a primeira a acenar de longe, a dizer adeus antes de oi, me dei uma
estrelinha de ouro. Morri de orgulho. Morri um pouco também. E o que me
dá mais medo, de toda uma lista infinita de medos, é essa desconstrução
de tudo que eu tenho, sei, sou. E o fato de que essa desconstrução me
deixa leve de um jeito viciante, como se fosse tudo que, no fundo, eu
sempre precisei. Voltar a acreditar e esperar, ainda que
involuntariamente, me deixa em pânico, juro. Porque eu já remei tanto em
vão, morri tanto afogada, que se eu cair de novo, não sei se lembro
como levanta. Faz tanto tempo que eu não caio e sei que isso é o tipo de
coisa que tem força pra me derrubar. E força pra me fazer completamente
feliz também. Só espero que seja usada a força certa.

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